Recomeçar pela milésima vez: a neurociência explica por que o recomeço é o nosso estado natural
- Geisa Ponte
- 4 de dez.
- 6 min de leitura

Sabe aquela sensação de que a sua vida é um eterno "episódio piloto" que nunca vira série? Você escreve o roteiro, contrata o elenco, compra o figurino impecável na papelaria mais cara do shopping, mas na hora de gravar a temporada inteira... o diretor sumiu. E o diretor, no caso, é o seu córtex pré-frontal tirando uma soneca. Se você já sentiu aquele misto de euforia na segunda-feira de manhã e uma vergonha profunda na quarta-feira à tarde, puxa a cadeira e senta aqui. Eu trouxe café (o terceiro do dia, talvez?) pra gente conversar.
A gente precisa normalizar o fato de que, para o cérebro TDAH, a consistência não é uma linha reta chata e monótona. Ela parece muito mais com um eletrocardiograma ou com aqueles gráficos de ações na bolsa de valores em dia de crise: sobe, desce, capota, sobe de novo. E tá tudo bem. O problema não é o gráfico oscilar; o problema é a gente achar que, se não for uma linha reta perfeita, o gráfico tá quebrado.
Eu sei, dói. Dói olhar pra aquela pilha de agendas de 2022, 2023, 2024... todas preenchidas lindamente até o dia 17 de janeiro e depois abandonadas como se fossem cenas de crime. A gente carrega uma culpa imensa por esses "cemitérios de projetos". A sensação é de que todo mundo recebeu o manual de "como ser adulto funcional" e o nosso veio com as páginas coladas ou escrito em grego antigo.

Mas, olha só, o que a gente chama de "falta de vergonha na cara" ou "preguiça", a neurociência chama de busca por novidade e disfunção executiva. O seu cérebro não está tentando sabotar sua vida porque ele é mau. Ele está desesperadamente buscando dopamina, aquele neurotransmissor que faz a gente se sentir vivo e motivado. E adivinha o que tem muita dopamina? O COMEÇO. O recomeço é viciante. O meio... bom, o meio é onde a dopamina seca e a gente precisa de estratégia, não de força de vontade.
Para te provar que você não está sozinho nessa ilha deserta dos projetos inacabados (que na verdade é um arquipélago superlotado), eu listei 5 situações clássicas, verossímeis e levemente tragicômicas que todo adulto com TDAH já viveu. Vamos rir de nervoso juntas?
1. O surto da papelaria (ou "a fantasia de organização")
Essa é clássica. Você acorda decidido: "A minha vida está um caos porque eu não tenho a ferramenta certa". A solução lógica? Ir à papelaria ou abrir o site da Amazon e gastar o PIB de um pequeno país em post-its neon, canetas estabilo de 50 tons diferentes e aquele planner de couro sintético que promete organizar até seus pensamentos impuros.
A dopamina aqui é gerada pelo ato da compra. O seu cérebro entende que comprar o item de organização é a mesma coisa que ser organizado. Você chega em casa, faz o unboxing mental, escreve com sua melhor letra na primeira página... e sente uma paz celestial. "Agora vai". Três dias depois, o planner está soterrado embaixo de uma pilha de roupas ou papéis aleatórios, e você está anotando compromissos na palma da mão de novo. O objeto virou parte da paisagem, invisível aos olhos.
2. O "Projeto Novo Eu" às 3 da manhã
Sabe quando você deita pra dormir e, de repente, o sono vai embora e dá lugar a uma clareza mental assustadora? É nesse momento que você decide que vai mudar TUDO. Você não vai só começar a acordar cedo; você vai acordar às 5h, fazer yoga, beber suco verde, ler 20 páginas de um livro de filosofia e aprender francês. Tudo isso antes das 8h da manhã.
Você monta cronogramas mentais perfeitos. Você baixa três apps de rastreamento de hábitos. Você se sente invencível. É o hiperfoco no planejamento. O problema é que o "Você das 3 da manhã" não combinou nada com o "Você das 7 da manhã". Quando o despertador toca, a motivação evaporou, e o "Novo Eu" foi substituído pelo "Velho Eu" que só quer mais 5 minutos e um café preto pra sobreviver. O choque de realidade entre a idealização e a execução é o nosso maior gerador de frustração.
3. O hobby que durou exatas 48 horas
Quem nunca olhou pro canto da sala e viu um violão empoeirado, um kit de aquarela seco, agulhas de tricô, equipamentos de fotografia analógica ou raquetes de beach tennis que foram usados duas vezes? O cérebro TDAH ama a curva de aprendizado inicial. A novidade é deliciosa. Aprender os três primeiros acordes? Incrível! Aaaaaaa, eu sou um músico nato!
Mas aí chega a parte chata: a prática deliberada. Repetir, repetir, calejar os dedos, errar, ficar ruim antes de ficar bom. Quando a novidade passa e vira rotina de treino, o interesse despenca. A gente abandona o hobby não porque não gostamos, mas porque a recompensa imediata sumiu. E aí fica aquele monte de tralha em casa olhando pra gente com cara de julgamento, como se fossem fantasmas de quem poderíamos ter sido.

4. O sumiço por vergonha (o ciclo do "Ghosting")
Essa é, talvez, a mais dolorosa. Você combinou algo com um amigo. Ou prometeu entregar um frila. Ou começou a postar conteúdo no Instagram todo dia. Aí, por algum motivo, você falhou um dia. Ou atrasou uma resposta. O que um cérebro neurotípico faria? "Oi, desculpa a demora, tá aqui". O que o cérebro TDAH faz? Entra em pânico.
A vergonha de ter falhado é tão grande que a gente paralisa. "Agora já passou muito tempo, se eu responder agora vai ser estranho". Um dia vira dois, que viram uma semana, que vira um mês. A gente dá "ghosting" em pessoas e projetos que amamos, não por falta de interesse, mas por excesso de culpa. A gente some porque não sabe como explicar que o tempo passou de um jeito diferente pra nós. E quanto mais tempo passa, mais difícil é voltar, criando um muro de ansiedade quase intransponível.
E aí, o que acontece depois dessas 4 situações? A gente se pune. A gente se chama de preguiçosa, de inconstante, de fracassada. Mas eu tenho uma notícia pra te dar, e ela é baseada em evidência, não em autoajuda barata: recomeçar é uma habilidade.
Se você já recomeçou mil vezes, isso não mostra que você é fraco. Isso mostra que você é incrivelmente resiliente. A pessoa que desiste de vez, para. Você não parou. Você parou, respirou, recalculou a rota e tentou de novo. E de novo. O segredo não é parar de cair (porque a gente vai cair, o TDAH é uma condição crônica), é diminuir o tempo que a gente passa no chão se lamentando. É encurtar o intervalo entre o "sumiço" e o "recomeço".
A gente precisa parar de buscar a "solução mágica" definitiva e começar a construir sistemas de "retomada rápida". É aceitar que o plano vai falhar e já ter um plano B para quando isso acontecer. É trocar a culpa pela curiosidade: "Hum, por que será que eu parei de usar o planner na terça? Ah, deixei ele fechado na gaveta. Vou tentar deixar aberto na mesa". Sem chicotada, apenas ajuste.
Então, vamos fazer um combinado aqui? Da próxima vez que você se pegar em uma dessas situações, em vez de se julgar, tenta rir. Olha pro violão empoeirado e diz: "Valeu pela dopamina daquela semana, amiga". Olha pro planner vazio e diz: "Hoje é dia 1 de novo". Porque no nosso mundo, todo dia pode ser segunda-feira (sem a parte ruim do Garfield).
Resumo salvável para dias de caos:
A papelaria não faz milagre: Ferramenta não é comportamento. Comece com papel e caneta antes de gastar milhões.
O "Eu do Futuro" é uma ilusão: Planeje para o seu "Eu Cansado" de hoje, não para o super-herói de amanhã.
Hobbies são sazonais: Tá tudo bem girar o interesse. O conhecimento fica, mesmo que o hábito mude.
Quebre o silêncio: Mandar uma mensagem "sumi, desculpa, tô viva" é melhor do que nunca mais aparecer. As pessoas gostam de você, não da sua performance.
Agora eu quero saber de você aí do outro lado: qual dessas 4 situações foi um "tapa na cara com luva de pelica" pra você? Ou será que você tem uma número 5 pra adicionar na nossa lista de tragédias cômicas? Me conta aqui nos comentários (prometo que leio mesmo se você demorar 3 dias pra responder)! 👇

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